terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Moral

27/1/2009
Moral de ontem e de hoje

Moral de ontem e de hoje

Ah! Que maravilha! Sou feliz. Sou ou não feliz? Viajando, lendo um bom livro, fazendo o que as pessoas, ditas normais, não fazem. Pois toda pessoa normal é medrosa. Por tanto, não tenha medo de ser feliz. E eu não tenho medo... Ui de medo! Só aqueles que conseguem ver a vida com arte; só os que fogem para contemplar a vida; só os que não fazem o que os outros determinam, são realmente felizes! A vida dos que trabalham, e não consegue apreciar a arte literária, ou as artes em geral, é uma vida sem sentido. Vitor Hugo diria que meditar é trabalhar. Pensar é obrar. O olhar fito no céu é uma obra. Ih! Quantos não estão obrando nesse momento! A viagem literária é uma viagem de sonhos e de fantasias. Viver é contemplar! É poder olhar e decidir o que fazer do produto de sua observação. Dessa vez eu tinha que ser feliz, minhas filhas, cobram isso de mim, pois “La Vida é Bela”! Esquerda! Volver! Eu era ali de fato o mais feliz. Estava como aquele ancião diante de uma criança: Ele feliz por já ter perdido sua memória, a criança também, por ainda não ter a sua. Assim estava eu em direção à terra prometida.

Das imagens que pude captar através da janela do Ônibus, não vou narrar, senão vou entrar em devaneios e parecer uma coisa surrealista. Sou um homem de hábitos simples, quanta modéstia não! É, pois ser simples hoje em dia é chique. Gosto mesmo é de uma boa conversa, e quanto mais “pomos da discórdia” houver melhor. Uma conversa com ou sem elegância. Contada pelos que aprenderam na escola da vida, dando à história sua própria entonação, sem as preocupações gramaticais, sem fumos literários! Gostaria de ser assim como eles, e quanto a essa afirmação podem me chamar de arrogante, eu aceito. Não que no ônibus não houvesse pessoas que eu pudesse extrair algum bom caso para escrever, é que naquela viagem solitária o “eu lírico” não existia, só queria mesmo era chegar e usufruir o que estava reservado para mim. Mas havia alguma coisa reservada a você? Algum leitor atento poderá pensar. Não! Eu sabia que ia ser proveitosa, pois era tudo que eu queria. E o que é uma viagem proveitosa? É uma viagem que tem história, e toda ela tem porem, nem toda encontra alguém motivado a contá-la, e eu estava, e estou.

O homem verdadeiramente feliz é um descontente. Se estiver contente é um bobo. E se não estava contente, eu era feliz. Li três volumes de: Fábulas de Jean de La Fontaine. Pois é sempre bom conhecer os clássicos para reconhecermos nossa mediocridade, para podermos compreender que, por mais que tentemos construir algo novo, ficamos presos aos clássicos. Todas aquelas fábulas eu já conhecia através de Esopo. Mas lá Fontaine não pretendia descobrir a roda apenas mostrar através das fábulas a moral que nelas se encerram.

Fui para Icó, cidade onde me criei. E fiquei a prosear com velhos amigos na praça principal de lá, em frente à cadeia, hoje tombada, pelo patrimônio histórico nacional. Era lá onde se reuniam os rapazes e moças para paquerarem. Estava feliz por ter encontrado uma boa conversa, uma conversa solta como o vento, o mesmo, que todas as noites sopra vindo da cidade de Aracati, e que por isso foi batizado pelo mesmo nome. Na minha época, quando ele chegava era carregando tudo! Sempre nos enchendo os olhos de areia, fazendo-nos olhar para o sul e vislumbrar outros horizontes... Conversa puxa conversa, surgiu essa sobre um mendigo, uma história que não encontrei, em nenhum livro.

Aquele que narrou essa história, mais parecia está narrando sua própria história, contava ele que um mendigo abrigando-se próximo a um casarão, e sem ter o que comer, pede que Deus lhe ajude e faça com que ele consiga algo para saciar sua fome. Mas mal o pobre coitado termina sua súplica caem sobre ele, três cascas de bananas. Ele rapidamente as come porem, sem nunca deixar de agradecer a Deus, por ter ele, atendido seu pedido. Isso aconteceu por muito tempo e o mendigo já contava com aquelas três cascas para suas refeições diárias. Mas o responsável por aquele milagre era um porteiro que tinha como pagamento por seu trabalho três bananas, que ele matava sua fome todos os dias e que ao comer, lançava fora as cascas, e que eram recolhidas pelo mendigo. Mas o porteiro achando que era pouco seu pagamento resolveu protestar fazendo greve de fome e não mais recebendo bananas como pagamento pelo seu serviço. E sem bananas não havia também as cascas.

O mendigo sentindo falta das cascas que o alimentava diariamente dirigiu-se ao porteiro e perguntou:

- O senhor por acaso poderia me dizer se viu três cascas de bananas que todos os dias eu recolho para o meu sustento? Pois há dois dias que não as encontro, e aquelas cascas era a única alimentação que eu tinha. O porteiro ao ouvir o que o mendigo lhe dissera percebeu que estava no lucro e compreendeu que na vida, por mais que achamos que as coisas estão ruins, existem coisas ainda piores. Talvez essa seja uma moral capitalista, pois é o que estamos vivenciando no mundo globalizado, em que muitos trabalhadores estão negociando a redução de seus próprios salários em troca da permanência no emprego.

Francisco Gonçalves de Oliveira

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