terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Joli



O intenso sol nordestino da rua S. Geraldo em Icó, estado do ceará, compunha o cenário para ambientar a história de joli. Graciliano Ramos certamente teria dito sobre joli melhor do que disse sobre a cadelinha baleia através de sua pena, em que humaniza o animal e animaliza o humano, muito embora, em torno de baleia tudo se humaniza. Sei que o que tenho para apresentar são memórias, e memórias são sempre traiçoeiras. Vejo joli deitado, ou trotando ao encontro de alguma sombra que começa a se formar na calçada. Joli como quase todos os cachorros da rua tinham dono, mas era como se não tivesse havia por parte dos donos um misto de posse e de abandono. Parecia conhecer os moradores da rua, sempre que alguém passava por ele recebia de sua parte qualquer tipo de manifestação, ou abanando sua calda ou com algum latido amistoso.Era uma forma dele dizer: " Oi! como vai tudo bem?

Sofria de flatulência, devida sua avançada idade, também não tinha o mesmo vigor físico de outrora. Mas, apesar da idade e do péssimo estado físico, ainda acompanhava a matilha, em festa, quando pressentia que havia alguma cadela no ciu, não tanto pelo faro, mas talvez entusiasmado, pois ainda era um cão da matilha. Mesmo dormindo eliminava seus gazes que nem sempre eram silenciosos. E quando isso acontecia, ele acordava e corria pela rua a latir, talvez imaginando que sua paz estivesse ameaçada. Muitos garotos não muito amistosos com ele atiravam-lhe pedras, e o pobre cão corria com seu andar cambaleante tentando livrar-se do apedrejamento, mas mesmo assim ele era um animal da família.

O rio salgado, um rio muito importante do ceará, é afluente do rio Jaguaribe. Nasce no cariri e vem banhando o sertão do ceará quando deságua no rio Jaguaribe.Outro grande rio onde foi construído o açude de orós.E era em suas márgens que deixavam os animais mortos. No meu tempo de criança, tínhamos mais medo de cachorro louco que de cobra, muito comum nesse rio,em época de cheia..E como não havia clinicas veterinária para o tratamento de animais, quando um cão adoecia logo a sabedoria popular sentenciava: É hidrofobia! Uma palavra formada de duas outras palavras de origem grega que significam respectivamente: Hidro= água e Fobia=Temor.

Joli esta louco! Correu a noticia e com ela o alvoroço pela rua, era o fim do nosso amigo,e os medos da doença do cão misturavam-se com o amor que todos aprendemos a sentir por ele. Acho que os últimos momentos da morte de qualquer ser vivo, são sempre os mesmos, repletos de sonhos, de desejos não realizados, de pena de si, quem poderá dizer o contrário? Na imagem criada por Graciliano, nos momentos finais de baleia ela ver muitos preás, mas não entende o porquê estão fazendo aquilo com ela. Joli também não entendia porque naquele momento todos se revoltavam contra ele. Armados de paus, pedras e uma espingarda previamente preparada para aquele fim. Com apenas um tiro,mas um tiro de chumbo, de grosso calibre! joli de mãos postas, uma de encontro a outra,como que perdoando a todos, despede-se da minha rua, a rua da minha infância...





Francisco Gonçalves de Oliveira

Dia dos pais



Andei pesquisando sobre o dia dos pais. Queria encontrar algum gancho para iniciar essa crônica. Mas o material encontrado não me foi suficiente para dizer o que eu queria dizer nesse dia. O motivo de minha pesquisa foi eu não ter conhecido meu pai. Queria saber dos entendidos no assunto, alguma coisa nova sobre esse dia. Mas descobri que a única coisa nova que poderia ter sobre o dia dos pais, não viria dos trabalhos já existentes sobre o assunto e sim de mim mesmo que embora não tenha conhecido meu pai pessoalmente, tive através de minha mãe o retrato falado, e afixado em minha mente sobre, como era meu pai.

Sob a ótica da minha mãe meu pai era um homem perfeito: Bonito, íntegro, bom, educado, carinhoso, em suma, um verdadeiro “cavalheiro.” E foi com um pai, com essas características, que pautei minha vida. Amanhã é o dia dos pais sei que minhas filhas farão alguma homenagem para mim. Onde trabalho existe crianças órfãs de pais vivos. O que é ainda pior. Muitas mães transmitem aos seus filhos, uma imagem de pai, sempre de acordo com o relacionamento que tiveram. Já que eles, não estão presentes para defenderem-se, vale para os filhos o que elas dizem sobre seus pais.

Isso para mim não é bom, pois se pode construir uma imagem de alguém que irá influenciar o filho pelo resto da vida que seja construída uma boa imagem. Vejo que muitas crianças que não tem pai procuram fazer alguma imagem dele. Seja porque morreu, ou resolveu por algum motivo abandonar seus filhos, o pai também sofre a ausência do filho. Embora eu tenha sido criado cercado de mimos, por ter perdido meu pai ainda quando criança, um ano, isso não impedia que eu colocasse essa condição de órfã para justificar alguma coisa que eu queria e que por algum motivo não podiam me dar.

- É se eu tivesse pai ele me daria isso... Dizia eu fazendo beicinho para chantagear.

E logo voltava a mente da minha mãe e do meu tio aquele fatídico dia em que meu pai foi barbaramente assassinado por um delinqüente, baixando sobre o teto, uma tristeza banhada em lágrimas, que não sei de onde vinha tanta, dessa pobre mulher que soube, mesmo tendo ficado apenas cinco anos casada, dar aos filhos a imagem de um pai herói.

Como não tive um modelo de pai, penso muitas vezes que não estou agindo como um verdadeiro pai. Mas também comparando eu pai, com outros pais pode dizer que pai é pai, esteja ele presente ou ausente. Não há pai melhor e nem pior, mesmo que algumas mulheres não consigam entender.







Francisco Gonçalves de Oliveira

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